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outubro 30, 2007

caramba, Manuel

Por Luís Cardoso

Ao António e à Luísa, agradecendo a colaboração no enquadramento histórico do romance “Requiem para o Navegador Solitário” (Lisboa, D. Quixote, 2007)


Caramba Manuel
como esperas conseguir esconder tanta gente? foi isso mesmo que ouviu numa mensagem enviada da Austrália após o seu desembarque em Timor, regressado daquele país, para onde se havia ausentado em busca de apoio dos aliados para salvar os portugueses, que embora estivessem cobertos pelo estatuto de neutrais, eram brancos e ocidentais, uns desterrados pelo regime e outros abandonados pelo Império numa ilha do fim do mundo, no extremo oriente, lá onde “O Sol logo em nascendo vê primeiro”.
Talvez Camões ao escrever este verso, tivesse intenção de referir-se aos japoneses que têm estampado na sua bandeira o Sol, símbolo de Deus ou Imperador, e em nome de quem não davam descanso a ninguém, nem mesmo ao Manuel e ao seu grupo, que foi engrossando com toda gente que lhe pedia protecção. Afinal foi para isso que se tinha retirado para a Austrália com a promessa de regressar com ajuda
Caramba Manuel
como esperas conseguir esconder tanta gente? perguntava Manderson com quem havia estabelecido o compromisso de que a sua missão em Timor seria a de um grupo secreto com a função de observar o movimento das tropas japonesas, tão invasoras como todas as forças militares que antes haviam entrado em Timor. O australiano recomendava-lhe que se libertasse de alguns. Como poderia libertar-se de alguns, se lhe juntava mais um fugitivo, mais desesperado ainda que o anterior, um desterrado do Alentejo ou um nativo de Kelikai, que no seu entender era tão português como o malae.
Os japoneses haviam organizado uma milícia chamada Coluna Negra, com gente recrutada em toda a ilha, e que se arrastava no terreno como uma sombra, levando na sua fúria tanto o Padre Pires, oriundo de Freixo-de Espada-à-Cinta, (nada consta nos registos que na altura dos acontecimentos, levasse uma espada na cinta que, porventura, tivesse irritado os japoneses) assim como o régulo de Suro D. Aleixo Corte-Real, cuja memória as entidades coloniais decidiram depois da guerra perpetuar, pondo a circular no território várias notas de escudos timorenses com a sua real estampa, numa clara alusão ao mito de que ter-se-ia embrulhado com o estandarte nacional antes de ser morto. As reparações tardias pecam por serem sempre tardias. Ainda que embrulhadas com boas intenções. O resto é um descargo de consciência. Mais valia que lhe tivessem oferecido em tempo oportuno meios para se defender do ataque das milícias.

Caramba Manuel
como esperas conseguir esconder tanta gente? Manderson avisava-lhe para reduzir o número para metade, para se livrar de alguns, talvez os nativos, quiçá as mulheres e crianças. Manuel achava isso uma imprudência, queria ficar com a consciência tranquila. Depois poderiam denunciar aos inimigos o seu paradeiro, como fizeram aqueles que se juntaram às milícias da Coluna Negra para fazer as desforras por causa do massacre da população civil praticado pelas autoridades coloniais nas campanhas ditas de punição e, que, para o efeito, tiveram de pedir salvo conduto aos japoneses, numa clara violação da soberania que doravante ficaria refém dos nipónicos, assim como todos os malaes que foram encerrados nos campos de detenção de Liquiçá e de Maubara, bem como os nativos enclausurados no seu próprio território.
Finda a guerra, Timor havia perdido mais de meia centena de milhar de almas. Um número tão elevado que surpreendeu o açoriano D. Jaime Garcia Goulart, primeiro bispo de Dili, que, sendo sábio e culto, devia saber que as guerras, embora fossem obra humana, pautaram sempre pela ausência divina que podia ter dado uma mãozinha (não importa se da esquerda ou da direita dado que Deus no campo ideológico é tão neutral como Salazar em tempo de guerra), uma mão que sustivesse o golpe no momento em que é desferido, como quando o fez na altura em que Abrãao ia sacrificar o filho.

Caramba Manuel
como esperas conseguir esconder tanta gente? Manderson insistia para largar alguns, talvez os nativos, quiçá as mulheres e crianças, empecilhos, aquilo era um grupo secreto e não um exército de salvação. Foi isso o combinado. Não devia pôr em risco a missão, nem mesmo a sua própria vida e a dos australianos que o acompanhavam, devendo concentrar-se apenas nos japoneses, que eram tantos como os mosquitos das várzeas com o seu zumbido aterrador, depois da chegada da quadragésima oitava divisão, que antes havia deixado o Império do Meio em pantanas.
MacArthur tinha-se retirado das Filipinas para a Austrália numa rendição histórica do exército americano que mais tarde haveria de vingar-se fazendo o Imperador curvar-se como vencido, naquilo que foi a maior humilhação sofrida por um homem que alguma vez se colocou na pele de um Deus, arrastando na sua queda um povo inteiro, estilhaçado pelas armas de destruição massiva que foram lançadas sobre Hiroshima e Nagasaqui, fazendo da Segunda Grande Guerra Mundial a mais apocalíptica de todas as guerras. João, o Evangelista, se porventura tivesse presenciado a cena, não ousaria passá-la à escrita por uma questão de bom senso. Poderia ofender as pedras.

Caramba Manuel
como esperas conseguir esconder tanta gente? assim lhe recomendava o australiano, a quem fez ouvidos moucos. O território era tão pequeno e devastado pelos japoneses que mais cedo ou mais tarde seria capturado. Ele sabia perfeitamente por experiência própria adquirida na Primeira Grande Guerra Mundial, nas terras de França, como aconteceu na batalha de La Lys, que a sorte nem sempre protege os audazes. Isso só acontece nos filmes americanos, Rambo, John Wayne, Oliver North e outros que tais. Embora na altura o enviado do governo de Lisboa o tivesse referido como “franco-atirador”, um epíteto utilizado pelos japoneses relativamente a todos aqueles que, de uma forma ou de outra, colaboravam com as forças aliadas. Francamente prefiro realçar a sua grande humanidade depois de ter lido o seu diário. Diga-se em abono da verdade que foi a sua boa conduta em tempos de paz, como administrador de concelho, que lhe valeu apoios dos nativos nos momentos críticos. Preso e torturado viria a sucumbir na prisão.
Os japoneses ficaram com o código secreto de comunicação que lhes permitiu anular sucessivamente diversas operações. Manderson estava provido de razão. Manuel não tinha condições nem meios para esconder tanta gente num território minúsculo, infestado de pequenos guerreiros do Império do Sol Nascente e atraiçoado por um coração enorme onde cabiam todos aqueles que, independentemente da origem, credo e da cor das peles, eram seus irmãos.

Caramba Manuel
como esperas conseguir esconder tanta gente?

Luís Cardoso